
NO CAPÍTULO ANTERIOR...
Aterro Tenente Baronel
Casa de Zumira & Aristides – Quarto – Noite.
[Felipe enxuga as ultimas lágrimas]
Felipe: Eu sei... Amanhã já não temos o que comer... A mãe fez os últimos dois ovos ontem.
Bruno: O homem que compra cobre não passou faz duas semanas.
Felipe: Vamos ter que trabalhar, senão “maínha” vai acabar morrendo.
[Os dois se abraçam, com um irmão no meio]
Bruno: Seremos unidos Felipe, e sempre ajudaremos a mãe.
Felipe: Sempre. E nada, nem ninguém vai nos separar.
AGORA...
Casa de Zumira & Aristides – Lado de fora – Manhã.
[Uma garoa finíssima caía sobre os enormes entulhos. Diversas crianças e catadores de lixo passavam com enormes sacos, vasculhando se algo ainda poderia servir de aproveito. Aristides sai da casa com um cigarro na mão, fumando, ele senta num caixote de madeira. Felipe sai da casa e se aproxima.]
Felipe: Pai...
Aristides: Hein?!
[Ele tinha essa mania quando fingia não querer ouvir]
Felipe: Onde está maínha?
Aristides: Não sei meu filho... Não sei...
Felipe: Não sabe? Meus irmãos já choram pai, já se passa do meio dia. Estamos com fome...
[Aristides puxa ele e o coloca sentado sob sua perna. Quando estava consciente, o filho de quem mais gostava era Felipe.]
Aristides: Me desculpe.
Felipe: Por quê?
Aristides: Por ontem. Eu acabei me deixando entrar em um mundo que não tem mais volta, por mais que eu tente é como se houvesse um espírito ruim que me cerca, me força a fazer aquilo.
[Eles ficam em silêncio por um tempo]
Felipe: Pra onde minha mãe foi?
Aristides: Já disse que não sei...
Felipe: Não minta pra mim.
Aristides: Ela se arrumou...
Felipe: Pra que?
Aristides: Foi na cidade grande, tentar conseguir algum dinheiro.
[Felipe se levanta assustado]
Felipe: E porque você não foi?
Aristides: Estou mal... Muito mal... Ataquei da enxaqueca, com dores nas pernas e um ardor nos olhos. Insuportável!
Felipe: Mentiroso! Mentiroso! Sempre que tocamos no assunto de trabalho você foge. Você nunca foi um bom pai... Faz minha mãe sofrer, só sofrer. Miserável!
[Aristides dá um tapa no rosto dele e fala em tom grosseiro]
Aristides: Chega! Eu te amo, mas nem por isso vou deixar que falte respeito comigo.
[Bruno ouve a briga e chega correndo]
Bruno: O que houve? [Ele vê Felipe no chão] Felipe? [Ele ajuda o irmão a se levantar e olha para Aristides] O que você fez monstro?
[Felipe começa a chorar]
Felipe: Ele me agrediu Bruno... Ele... Ele queria fazer comigo... Igual fez com a mãe ontem à noite. Ele iria me estuprar Bruno.
Aristides: Como é que é?
Bruno: Pai? Eu estou te desconhecendo. Obrigar a mãe a fazer isso, tudo bem, que vocês são casados. Mas assediar um filho seu?
Aristides: Que história é essa Felipe?
Felipe: Não se faça de desentendido pai, você começou a se esfregar em mim, a dizer coisas no meu ouvido, me prometeu presentes se eu fosse com você. Eu não quis e você revidou com um tapa.
[Aristides começa a tirar o cinto]
Aristides: Você vai ver a sova que eu vou te dar. Cortar essa sua língua do capeta pedaço por pedaço.
[Felipe começa a apavorar]
Felipe: Bruno, pelo amor de Deus. Me ajuda Bruno. Me ajuda.
Bruno: Corre Felipe! Corre!
[Bruno segura na mão do irmão e eles começam a correr]
Aristides: Voltem aqui suas pestes. Filhos duma égua! Voltem!
[Aristides tenta correr, mas sente dor de cabeça]
Aristides: Droga de enxaqueca!
[Os meninos fogem]
Supermercado – Manhã.
[Zumira,
arrumou o melhor que pôde e foi até a um supermercado tentar conseguir um
emprego de entregadora de folhetos, e conversa com o gerente]
João:
Olha, se eu fosse levar pelos requisitos do supermercado eu não poderia deixar
a senhora trabalhar, mesmo que seja só por hoje.
Zumira:
Pode não parecer, mas eu entendo senhor.
João: E
só vou te dar esse emprego porque ninguém quer entregar folhetos na rua hoje em
dia, e você não vai trabalhar aqui não, é só hoje. Cada pessoa que chegar aqui
com o folheto, você ganha três cruzados.
Zumira: Três
cruzados?
João: E
você queria mais? Vá fazer uma faculdade se quer ganhar mais. Pronto, pode ir!
[Zumira
pega os folhetos e sai cabisbaixa]
Aterro Tenente
Baronel – Manhã.
[Felipe e
Bruno caminham observando a movimentação de catadores de lixo. Conversam
enquanto caminham.]
Bruno: E
agora Felipe? O que faremos?
Felipe:
E você quer que eu saiba?
Bruno:
Lógico! Saímos de casa por encrenca sua!
Felipe:
Não sei o que fazer. A mãe foi até a cidade conseguir algum emprego.
Bruno:
Ainda bem, não sei se vou aguentar muito tempo, eu estou com muita fome e o sol
hoje resolveu castigar.
Felipe:
É verdade... E se fizermos igual à mãe? Se formos até a cidade à procura de
emprego?
Bruno:
Boa ideia Felipe! Aposto que ela ficaria orgulhosa em saber que nós estamos
querendo ajudar.
Rio de
Janeiro – Rua – Manhã.
[Zumira
está andando pela calçada, em uma rua com poucos comércios, o sol está bastante
quente e ela soa muito. Um carro preto se aproxima dela, abre o vidro e um
homem de óculos escuro começa a conversar]
Antunes:
Boa tarde.
Zumira:
Tarde!
Antunes:
Lindo dia, não?
Zumira:
Só se for para o senhor, porque pra mim está calorento demais.
Antunes:
Como vai a entrega de folhetos?
Zumira:
Bem, na medida do possível. Por quê?
Antunes:
Eu acho que tenho uma oferta para te oferecer, melhor financeiramente do que
esse seu emprego. O que acha?
Zumira:
Do que o senhor está falando?
Antunes:
Por favor, não me chame de senhor. [Ela
vai andando e ele acompanhando lentamente com o carro] Que tal se eu te
oferecer uma boa gorjeta? [Ele faz uma
pausa] Vamos afogar o ganso.
Zumira:
Não entendi. Como disse?
Antunes:
Te ofereço trezentos cruzados para que você entre nesse carro agora e vá direto
ao motel comigo. E então, topa? É pegar ou largar.
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